Novos recordes de público, equipes e velocidade cairam na final mundial da ADRLA Associação Desafio fez mais um TOP 16 no Open do Velopark. Como acontece desde o primeiro realizado em dezembro de 2008, não faltou competição e emoção.
Mas faltou algo fundamental, o público.
A discussão e a compreensão de por quê isso acontece está apenas começando, e parece que finalmente sera considerada uma questão importante. Entre as pessoas com quem converso dentro e fora da AD, existe a percepção clara de que o Velopark não entende o espetáculo arrancada.
Vejo a questão de outra forma. Desde que o Velopark começou a operar, ele sempre buscou trazer a "elite" do esporte para seus eventos. Isto, somado ao fato de que a pista é a primeira
Drag Way verdadeira do Brasil, deveria ser o suficiente para que o público prestigiasse de forma crescente a novidade.
Não é isso que estamos vendo acontecer. Passado mais de um ano da inauguração, a arrancada não decolou no Velopark. Nós da AD temos acompanhado todo o processo com muita atenção. E por mais incrível que possa parecer, os americanos, inventores deste esporte, estão enfrentando situação muito semelhante em alguns casos por lá . Existe uma parte da arrancada que tem um sucesso nunca visto antes. Casa cheia, públicos recordes, equipes de ponta com desenvolvimento profissional chegando às provas às centenas. Do outro lado da moeda, a principal liga, a NHRA, se desfazendo lentamente para agonia de seus admiradores. Muitas cartas são escritas para revistas especializadas afirmando que as provas da NHRA são monótonas, sem emoção e por isso mesmo, com ingressos caros demais.
Lá, com mais de 50 anos de arrancada, os americanos estão podendo ver dois exemplos em tempo real. Um de sucesso e outro que está enfrentando serios problemas.
Arquibancadas vazias na NHRALá, as análises apontam a falta de emoção para o público como um fato decisivo da falta de torcedores na arquibancada. Some-se a isso um preço de ingressos inadequado para o momento da economia americana e temos a base da debandada do público das provas da NHRA. Com o público, foram embora também os patrocinadores e, por fim, os competidores.
Na outra ponta do espectro, a ADRL e as Associações ou clubes, que estão fazendo eventos com cada vez mais participantes e público. Não existe mágica ou segredo no que está acontecendo. Simplicidade, muita competição, ingressos a preços populares, inscrições nas provas com preços reduzidos e boa premiação para quem vence. Tudo voltado para trazer entretenimento de qualidade para o público em geral e também para inserir os pilotos em eventos verdadeiramente competitivos.
Apesar do frio, arquibancada lotada e mais de 500 carros na disputaEsta atitude levou a um formato de corridas sem paradas e atrasos, que permitem ao público ficar ligado do princípio ao fim as disputas. Poucas " categorias", regras mais simples estimulando sempre a competição direta e premiando os vencedores. Todas as boas corridas tem garantia de cobertura da mídia e os shows para TV, tem no máximo, três horas de duração.
As provas são anunciadas com muito tempo de antecedência, os ingressos são disponibilizados com antecipação. Muitos donos de pista e clubes fazem promoções onde apenas se paga o estacionamento (sendo livre a lotação do carro). Em outros eventos, cada ingresso dá direito a um cachorro quente e uma coca Cola.
As provas de clubes têm ingressos a 10 dólares, com direito a circulação livre nos boxes e boas feiras de venda de produtos de performance. As inscrições vão de 15 dólares (carros mais lentos) até 40 dólares, os mais rápidos. Uma parte da renda do público é distribuída entre os primeiros classificados e existe extenso programa de contingência, onde os patrocinadores pagam mais premiação para quem vence usando seus produtos.
Pensando nisso, vamos voltar ao Open. Este evento foi a primeira iniciativa moderna na arrancada brasileira. Só não teve a honra histórica de ser primeira prova o
ut law do Brasil, porque o Velopark nunca o assumiu (até este momento) como uma competição. Deveria ser realizado com um frequência média de 40 dias. Mas sofreu demais por não ter um critério para remarcação de datas. O que acabou por afastar seus frequentadores.
O Open deveria ser uma competição por tempos (index) para facilitar a aproximação de novos pilotos. Uma parte deste objetivo foi conseguido. Por um problema de formato, a competição direta nunca aconteceu e isto confunde o público e até os participantes. Competidores de mesmo index de tempo sempre deveriam alinhar juntos em um sistema classificatório. Assim o público entenderia quem venceu e quem perdeu, coisa que não acontece até hoje.
A implantação do bracket, um tipo de prova de regularidade, tornou ainda mais dificil para o publico a compreensão do acontece na pista.É muito dificil alguem gostar de algo que não compreende.
A
única exceção em todo o pais é o TOP 16 da AD. Esta é uma competição direta entre os 16 mais rápidos, onde um vence. Mesmo quem nunca viu arrancada, consegue entender. É a arrancada clássica disputada no mundo afora por todas as ligas. A qualidade do
up sixteen determina a afluência de público a um evento. E a quantidade de patrocinadores que a prova vai conseguir.
Mas o que aconteceu no Open? O TOP foi colocado no final do evento, após o
bracket - que nos EUA é chamado de espanta público- quando todos já foram embora. Só estão na pista os que realmente gostam do esporte. Às vezes nem mesmo eles podem esperar tanto tempo neste nosso mundo, onde justamente o tempo é o bem mais precioso. A conclusão que podemos chegar é que o Velopark desprezou uma grande ferramenta ao colocar o TOP no final do evento, após uma competição de regularidade, que só interessa a quem participa dela.

A recente extinção da IHRA como liga profissional, causou um "take over" das equipes e donos de pista. Agora são eles que organizam o campeonato de 2010
Reconhecemos o bracket como um produto com mercado . O bracket, com boa administração, pode rapidamente chegar a elevado número de participantes e assim até dispensar o público . Sua viabilidade econômica será ditada pelo valor das inscrições. Mas não se espere dele a arquibancada lotada.
Já a arrancada não pode abrir mão do público. E o público não abre mão de espetáculos competitivos e emocionantes. Os pilotos - todos sabemos - não podem pagar a excepcional estrutura do Velopark.
Só o público e os patrocinadores que atrair poderão pagar pelos eventos, e isso só acontecerá quando houver na pista algo que ele entenda e goste. A arquibancada cheia é a garantia para o dono da pista de que ele poderá vender o evento, vender espaço no complexo, e aumentar suas parcerias econômicas. Assim, com lucro, reduzir todos os custos para os pilotos e criar um programa de premiações vinculado à presença do público para desenvolver o esporte.
Enquanto não conseguirmos mostrar ao público que este é verdadeiramente um esporte competitivo, onde os carros se enfrentam e um ganha e outro perde, continuaremos a ver as arquibancadas vazias. E os muros laterais da pista imaculadamente brancos.
No dia 29 de novembro teremos mais um
STREET RULES DAY. Segunda edição do primeiro evento
out law. Nele vai ter TOP 16 no horário certo e não terá bracket. Será realizado lá no alto da serra, em Guaporé, e o número de inscrições de carros e comparecimento de público vai nos dizer muito sobre o caminho que ainda temos trilhar para chegar ao esporte que queremos.