
Conheço os irmãos Andreis há alguns anos. Eles apareceram lá na oficina com uma vontade enorme de fazer um Eclipse inspirado no filme "Velozes e Furiosos". Tentei enrolá-los, mas a determinação do Fábio Andreis acabou por me convencer a entrar no projeto.
Fizemos um parachoque - mais correto dizer carenagem dianteira - com o visual do carro do filme, e a primeira coisa que deu para descobrir é que ele nunca poderia ser usado nas péssimas ruas de Porto Alegre. Nesta época , as idéias dos irmãos já estavam mudando de rumo, e em vez da ilusão copiada do cinema, eles estavam abraçando a realidade de competir em Drag Race.
Não foi um início fácil. A primeira vítima dessa vontade de competir para vencer foi a Parati da mãe. Não era o que eles queriam, mas os preparadores eram unânimes em dizer que se eles queriam correr, teria que ser um AP ( em referencia ao motor VW). O que estava mais à mão era a Parati... Um bom dinheiro gasto, muitas quebras e nada de resultados. Os irmãos avançaram mais e compraram outra Parati, agora com motor 2l 16V. Esta sim , seria um "foguete", garantiu seu novo preparador.
Mais de R$50.000,00 depois, e o acúmulo de grande frustração, pois o carro muitas vezes nem conseguiu chegar à pista de corridas do sambódromo - e olha que o Gringo morava perto . Era de se esperar que os gringos fossem tocar a vida, e cuidar do seu mercado, que já é trabalho suficiente.
Nada disso. Estávamos na oficina, e num sábado à tarde aparecem os "gringos " com um Eclipse velho, que buscaram em Santa Catarina e a lenda diz que foi resgatado de um galinheiro. Eu, não duvido.
Naquele momento, começavam a pensar com sua própria cabeça! Mudaram as estratégias, fizeram coisas simples como aliviar peso, e logo alcançaram os resultados que sempre buscavam mas não haviam conseguido, apesar da grande quantidade de dinheiro gasto. Em pouco tempo, o Eclipse ficou conhecido nas arrancadas em Porto Alegre como o carro a ser batido.

Nesta época, os "gringos" iniciaram um trabalho de grande valor para todos nós que gostamos de corrida e sonhamos um dia ser profissionais em um esporte que emocione o público e se torne uma paixão nacional. De uma forma muito simples, como deve ser mesmo, eles conseguiram diversos "patrocínios " para ajudar com as despesas que a competição gera. E fizeram melhor, utilizando as possibilidades que o negócio de supermercado que possuem lhes oferecia, trocaram espaços de propaganda no carro por produtos.
Esta atitude simples, utilizada com inteligência e generosidade, ajudou muito na formação da Associação Desafio. Um dos seus primeiros apoios, os refrigerantes Fruki, foi de grande valor em um dia na pista em que a temperatura chegou a quase 50 graus! Lá estavam os gringos com um estoque quase ilimitado de refrigerantes gelados . Um tesouro dentro de um isopor... Até hoje bebo refrigerantes da Fruki por causa daqueles dias.
Muita água passou por baixo desta ponte. A ingenuidade inicial está sendo substituida pelo profissionalismo. Hoje os gringos têm contratos de patrocínio que não são bons apenas para eles. São de grande valia para todos nós , principalmente como exemplo do que deve ser feito para se ter um carro em nível competitivo e gerar interesse pelo esporte.
Na semana que passou, os dois Eclipses foram expostos na convenção da AGAS (Associação Gaúcha de Supermercados), a maior feira de negócios do setor no Brasil. O ingresso que franqueava as dependências da feira custava 150 reais, o que não impediu a presença de quase 40.000 pessoas em três dias. É uma feira de negócios, frequentada por executivos, lojistas e compradores em busca de oportunidades.
E lá estavam os Eclipses em um estande pago pelo patrocinador - Queijos Kunzler - mostrando um pouquinho do mundo da arrancada para um público selecionado. No final da feira, o patrocinador em pessoa, seduzido pela energia que as máquinas projetam, pediu que Fábio ligasse o motor... Uma "arte", que o espírito da criança que temos sempre conosco não deixou passar.
Logo o carro estava cercado por executivos de olhos arregalados, impressionados, assustados pelo som de um cano de 3 polegadas sem abafador... coisa que certamente nunca ouviram na vida...E melhorou ainda mais quando Fábio, ainda estimulado pelo patrocinador, levou a rotação para 7000 rpm e acionou o "TWO STEP"... fogo multicolorido pra todo lado, mais barulho que a invasão da rocinha pela PM... as pessoas se afastando sem querer sair de perto!
Claro que aí chegaram os seguranças, enlouquecidos pela pequena "guerra civil" que eles aprontaram. Ameaçaram expulsar todo mundo, mas... aí já era tarde! O espírito "Drag race" já tinha se instalado na imaginação de muita gente.
Eu deveria estar lá, mas um compromisso impediu. Quando soube de toda história, não pude deixar de pensar, com um sorriso na alma, em uma frase fundamental: " engraçado, quanto mais trabalho, mais sorte eu tenho..."
Fazendo o que tinham de fazer, Rafael e Fábio certamente ajudaram a arrancada se tornar mais profissional, deram o exemplo para todos nós e, provavelmente abriram caminho para renovação dos seus patrocínios para o ano que vem.
Definitivamente, quanto mais eles trabalham, mais sorte eles têm...

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