segunda-feira, 14 de setembro de 2009

A arrancada não é fashion






Gosto muito de corridas e não tenho preconceito com as variações do esporte. Estou mais para gostar ou não. O que me leva a decidir geralmente é o nivel de competição e emoção que um categoria ou espetáculo tem.

Assim , as melhores lembranças que tenho da FI são da era turbo. Competição dura, gerou pilotos excepcionais. Lauda, Pironni, Proust, Piquet, Senna, Mansell e, no finalzinho, Schumacher. Depois tiraram a potência dos carros, as suspensões ativas e o espetáculo foi declinando ao ponto em que estamos agora, onde até o Rubinho pode ser campeão.




Com o mundial de rally aconteceu o mesmo. Pilotos fantásticos, carros beirando os 1000cv, torcedores fanáticos seguindo as provas e arriscando a vida para vê-los passar, como toureiros enlouquecidos testando a sua sorte. Os pilotos da época diziam que tinham de imaginar a multidão como rochas, ou não conseguiriam pilotar. Mas os acidentes, a morte de vários pilotos importantes -inclusive do campeão - e de muitos torcedores levou a uma intervenção, e o campeonato mundial de rally passou a ter carros de potência reduzida, percursos mais seguros, e a emoção acabou. Hoje é uma sombra que se alimenta do passado.

Tivemos o DTM. Inicialmente carros de rua modificados, teve momentos de grande emoção e consagração de pilotos. Lembro de Edgard Mello Filho narrando aqui para o Brasil, com sua assumida preferência pelas Alfas - que eram sensacionais mesmo . Eu procurava não perder uma transmissão, que era da Band se a memória não esta me sacaneando. Hoje, o DTM ainda existe, e é a principal competição do automobilismo alemão, como foi desde sempre. É uma competição entre dois fabricantes - Mercedes e Audi - e os carros tem tecnologia de FI, não falta fibra de carbono e conhecimento de ponta, especialmente de aerodinâmica.

Os alemães gostam muito dele, mas como produto de entretenimento, esporte de massa, deve muito a seu passado. Hoje o DTM é fashion. Muitas mulheres "envelopadas" desfilando pelos boxes, marcas mundiais como Red Bull, hospitality centers milonários e o arroz de festa tradicional, como celebridades e tudo mais. Mas aquela emoção, os pilotos que entusiamavam multidões, isso ficou no passado.

A indústria do entretenimento, ao qual os esportes automobilísticos pertencem nessa nova era, sabe o quanto é dificil produzir algo com que as multidões se identifiquem. Quando descobre, tranforma em ouro puro.


A Nascar é exemplo da vez. Suas competições são realmente emocionantes para quem as assiste. Os pilotos lutam de verdade, e o formato da competição os obriga a isto. Quando a direção da empresa que comanda a Nascar percebe uma queda nesses parâmetros, modifica rapidamente o que for necessário para se manter no topo. Da audiência, do interesse, no comando.

O outro exemplo de sucesso nesse novo mundo é a American Drag Race League, a hoje extremamente popular ADRL. Esta jovem liga - cinco anos incompletos - soube como ninguem capturar o interesse e a emoção do esporte arrancada. A arrancada tem mais acidentes fatais que o rally, e estes aumentam na mesma proporção em que aumentam a ve
locidade e a potência dos carros.

Mas na ADRL, em 4 anos de corridas com veículos de 3 a 5 mil cvs ainda não aconteceu nenhuma fatalidade. É um dos orgulhos da liga. Como fizeram isso, se suas regras são as mais liberadas em Drag Race, desde que os carros corriam em lagos secos sem regra alguma?

Simples: reduziram o tamanho da pista e na mesma proporção em que criaram regulamentos com peso e potência livres, também fizeram regulamentos de segurança extremamente eficientes. Assim, o espetáculo se tornou rápido, emocionante e... popu
lar.

Provas com 100.000 espectadores - número inimaginável na arrancada - começaram a se repetir como um fenômeno. Isso movimentou os patrocinadores e equipes e, como uma bola de neve, a ADRL cresce cada vez mais. E leva mais público às drag ways , porque vendeu o espetáculo como familiar, para todas as classes e, em movimento espeta
cular, levou apoio para escolas e comunidades carentes, em bairros menos favorecidos. Com isso fez algo bom e divulgou o esporte.



O que se vê hoje é algo impressionante. A arrancada da ADRL é o esporte mais multirracial dos EUA. Baseada em conceitos simples, poucas categorias, todas com uma classificação e um TOP 16. Premiação alta, custo mínimo de inscrição para equipes, grande esclarecimento ao público participante, um grande programa de filiação à liga com ingressos a custos baixissimos, podemos ver famílias, brancos, negros, hispânicos, classe média, classe baixa, uma mistura muito "rock and roll" nas arquibancadas. Sem garotas envelopadas.


Muito popular, como qualquer estádio de futebol no Brasil. Nós, os brasileiros, somos os inventores desta fórmula. E, como a arrancada, não somos fashion.

Precisamos urgentemente trazer estes conceitos simples para que a arrancada brasileira, ou ao menos a do sul do país, possa dar largos passos em direção à modernidade. Competição, emoção e o povo na arquibancada. Isso é o futuro.




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