Ouvi muitas histórias sobre o festival de Curitiba. A maioria delas me foi contada como uma narrativa de aventuras, kombis lotadas de peregrinos da arrancada com dinheiro contado, para quem um hotelzinho ou a casa de um conhecido do amigo já seriam um luxo espetacular. É certo, todo fiel deve ir a Mecca uma vez na vida para demonstrar sua fé...
As histórias eram semelhantes, e ir a Curitiba era estar em contato com as lendas, com os carros mais velozes, ver o Degreas pilotando seu Opala como um maluco... ver os americanos e os carros a jato que tinham o poder de disparar os alarmes por todo estacionamento com sua passagem pela pista. Era a hora e o lugar para se estar, e qualquer sacrifício era pequeno. O Igor da Smarttech me confidenciou que juntou "todos os seus pilas" de jovem trabalhador para ir a Curitiba pela primeira vez no século passado.
Mas já faz um tempo, a magia se foi. Os peregrinos perderam a fé ou Mecca não é mais a mesma?
Fui à luta para descobrir onde ou quando o encanto se quebrou. O Felipe Hill, grande fã do Degreas daquela época, me trouxe uma pista para desvendar a questão. Ele conta que as coisas ficaram esquisitas quando foi instalado o placar eletrônico, na época uma grande evolução . Aparentemente os pilotos ficaram tão felizes com a novidade que pararam de se importar com o resultado da corrida lado a lado. A partir daí, tudo que importava era "O" placar!
Custei a acreditar que isso fosse possível, mas daí, olhando PINKS no Speed vi que eles não utilizam meios eletrônicos justamente para voltar ao básico: competir pela vitória, derrotar o oponente.
É logico que não é apenas isso, mas tem mais. Um conhecido de São Paulo, ligado à arrancada tradicional fez uma leitura do festival que achei reveladora. Ele me disse: " no festival, os pilotos são coadjuvantes secundários...".
Isso me lembrou muito a entrevista do presidente da SEMA, onde ele fala que nos EUA está tudo muito técnico, que falta alma e paixão nas provas das grandes ligas.
Sim, os americanos têm problemas. Mas tenho de reconhecer que eles se esforçam para resolver. Eles encaram a arrancada como uma indústria que está assentada nas seguintes bases: os pilotos e torcedores, os fabricantes de peças e equipamentos, os proprietários de pistas (organizadores de provas, ligas, clubes) e os meios de divulgação do esporte. A coisa vai bem quando todos têm os interesses atendidos.
Como houve uma queda na frequência às pistas e também nas vendas, logo eles começaram a analisar o que estava errado e o que estava dando certo, mesmo que fosse no quintal do vizinho. Dinheiro não aceita desaforo...Logo deu para descobrir que:
1- Existe grande desinteresse dos jovens pelo esporte. Mesmo que o estilo de vida da arrancada ainda faça parte de suas vidas, já não é uma prioridade. Solução? Trabalhar para trazê-los de volta, para que nos próximos dez anos a indústria volte a ser saudável.
2- Os jovens e o público tradicional da arrancada foram deliberadamente substituidos pelo público "genérico", que não tem nenhuma ligação com o esporte. A corrida, com carros ostentando lomarcas, é apenas uma interface para vender-lhes coisas. Porém, as indústrias que apoiam financeiramente o esporte desde o início acabaram por ficar de fora. Este é um público que não consome peças de carro, e tanto faz se eles estão em uma corrida de arrancada ou no Cirque du Soleil. Resumindo, não dá para contar com ele. nas horas difíceis.
3- Talvez o maior pecado dos grandes organizadores de arrancada por lá foi perder a paixão pela competição. Eles dizem que foi como vender a alma. Esta talvez seja a causa principal dos problemas.
Os cinquenta anos de desenvolvimento do esporte que eles têm na nossa frente lhes dão vantagem.
A base lá é imensa e tem sido estimulada ao longo dos anos. Dezenas de provas ( talvez centenas) de todos os tamanhos acontecem por todos os lugares do país. Existe liberdade e estímulo para que assim seja. Todos aprenderam que, com uma base forte, sempre haverá novos pilotos e um esporte forte.
As portas estão se abrindo em 2010 e já podemos espreitar pela fresta...
A CBA promete um novo campeonato brasileiro, realizado nas três principais pistas do pais - duas provas em cada uma delas . Isso faz sentido.
Para que que este campeonato tenha sucesso foram apresentadas novas regras, que reduzem o antigo número de categorias pela metade. Ainda sobraram 12. Faz sentido.
Entre estas 12, está uma categoria nova , a Extreme Ten Five que vem revestida da promessa de ser uma das soluções para arrancada brasileira por integrar praticamente todo o tipo de carro. Faz sentido.
Novamente temos a promessa de provas com eliminatória e mata-mata, com vencedores conhecidos e não os velhos pilotos de pole position. Faz sentido.
O que não faz sentido é criar problemas para o desenvolvimento das bases. Sem base você não tem educação, sem base você não tem edificação e sem base, logo logo vai ver que seu esporte não chegará a nenhum lugar. Já está na hora de compreender que pequenos interesses corporativos trarão grande prejuízo a todos, e não apenas aos prejudicados diretamente em um primeiro momento.
Sem as bases, não haverá renovação entre pilotos e equipes. Não existirão novidades nas competições e quem vai sofrer mais diretamente são os eventos nacionais. Meus parentes na fronteira chamavam isso de dar "tiro no pé", um sinônimo de grande incompetência.


2 comentários:
Vamos voltar ao espirito da arrancada, um carro contra outro carro. Vamos renovar, em carros, pilotos e tudo mais, vamos difundir a arrancada, vamos fazer uma arrancada do tamanho que ela é.....Excelente post Marquinhos
Faz sentido...
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