segunda-feira, 22 de março de 2010

RISCO FAZ PARTE. PENSE NA SEGURANÇA





O esporte é a alternativa mais eficaz que a humanidade encontrou para as guerras. Nele desenvolvemos tecnologia, aprendemos o valor da liderança, do companheirismo e a trabalhar em conjunto na busca de um objetivo. No esporte e na guerra buscamos a vitória.

A violência da batida inutilizou o monobloco. Observem o teto.

A diferença fundamental é que no final das batalhas na guerra temos como resultado a perda de vidas, e no esporte a celebração dos vencedores.

O automoblismo - em qualquer de suas formas - é um esporte de risco. O risco é o que o torna emocionante, assim como é muito difícil ficar indiferente à velocidade e à potência quando podemos sentir seus efeitos. É o que fascina o público e a maioria dos pilotos.

O carro bateu na diagonal do lado direito e depois , mais forte, do esquerdo.

Mas não significa, de jeito algum, que eles queiram se machucar. Ou mesmo que a torcida - que sem dúvida aprecia a emoção feroz do acidente - queira ver um piloto ferido. Todos querem ver o piloto sair do carro, fazer sinal de positivo para a torcida e sair caminhando como um super humano. Renovando nossa fé de que o impossivel é possivel diante de nossos olhos através das maquinas que construimos para interagir com o mundo.

Para isso funcionar, ser o espetáculo envolvente que dever ser, é preciso pensar em segurança com severidade.


Neste final de semana, pela primeira vez, a pista do Velopark teve um duro teste de seus limites. Um gol turbo B , bateu forte nos treinos da manhã de sabado, logo após a marca dos 402m. Quando passou a fotocélula estava acima dos 220 km/h, e logo após a linha deu uma guinada a direita - talvez por um problema mecanico - indo direto para o muro. Pelas marcas de pneu no chão, o piloto tentou reagir à situação, mas a velocidade era muito alta e ao bater foi lançado de volta colidindo com o muro da pista da esquerda com muito mais violência. E seguiu esfregando pelo muro até o final da pista ( mais 600m) até, finalmente, parar.

Os socorristas chegaram rapidamente ao local e encontaram um carro com o monobloco torcido, mas com o espaço do piloto preservado graças à gaiola de proteção. O piloto estava desacordado, provavelmente devido à força do impacto. Junto com os socorristas também chegou Jhonny Bonilla, o diretor do complexo, e o que viu e sentiu naqueles momentos em que os socorristas lutavam contra o tempo para resgatar o piloto lhe trouxe muitas preocupações. Quando recobrou a consciência, o piloto passou a sofrer dores intensas e logo se viu que havia um problema grave nas pernas.

A porta foi cortada para poder ser aberta.

Foram longos e angustiantes 10 minutos para libertar o piloto. Com cuidado redobrado, os socorristas enfrentaram dificuldades inesperadas, pois o piloto ficou preso pelo painel do carro, justamente na região em que estava machucado. Para dificultar ainda mais, a existência do banco do carona não dava espaço para o trabalho de resgate. Essa realidade chamou a atenção de Bonilla. A gaiola de proteção mostrou claramente seu valor e garantiu a vida do piloto. O novo suporte do banco exigido em 2010 fez seu trabalho e o equipamento se manteve no lugar.

Com o recuo da roda durante a batida, o assoalho subiu, reduzindo muito o espaço do piloto.

Já com o piloto na segurança de um hospital - fêmur quebrado e a certeza de um cuidadoso trabalho de recuperação - sobraram as reflexões. Relembrando a experiência em uma conversa aberta Bonilla se perguntava:" por que um carro de corrida tem um painel que compromete a segurança? Por que tem banco do carona se isso só atrapalha o trabalho dos socorristas e compromete tempo vital no auxílio ao piloto?"

O que ficou da experiência é a certeza que carros tão rápidos precisam de proteção para os pilotos. E este é um fato que não pode mais ser desconsiderado ou negligenciado.


Nos últimos anos tenho me dedicado a trabalhar pelo desenvolvimento da arrancada através do fortalecimento da base. Fiz bons amigos ao longo deste caminho e não aceito o fato de que mais dia menos dia terei de ouvir a notícia de que um deles tenha se ferido gravemente em uma competição. Ou ainda pior.

Não aceito porque sei que isso não precisa acontecer. Os recursos de segurança existem, são de tecnologia conhecida e acessível a qualquer um que tenha um carro que pode chegar aos 200km/h em 402m. Não se iludam acreditando que o monobloco do carro será o suficiente para garantir sua integridade. Olhem as fotos com calma. Analisem bem as imagens . Elas valem mil palavras.

O esporte automobilístico tem riscos, o que só aumenta sua atração. Os carros vão andar cada vez mais rápido, porque a sede de aprender e evoluir é uma das grandes qualidades do ser humano. Mas lembrem-se que isto é, antes de tudo, uma celebração dessas qualidades. Se os acidentes serão inevitáveis, as consequências não são.

O painel acabou muito próximo dos pedais e do assoalho, o que dificultou o socorro.


A estrutura da gaiola encolheu com a pancada. Se fosse em X, a segurança seria maior.

Novo suporte exigido para bancos de aluminio, manteve a peça no lugar.


Cacos de vidro contaminando o habitáculo. Um risco desnecessário.


Cinto de três polegadas. Aguentou o castigo. Este terá de ser inutilizado.


O carro guardado para uma análise posterior sobre o que levou ao acidente.

Fotos de Rita Copetti de Queiroz e Carlo Isaia Neto

2 comentários:

  1. Marco e demais amigos...

    Tem uma frase bem antiga e bem batida no automobilismo, mas que sempre (principalmente se tratando com a seguranca) vale a pena lembrar:

    Para chegar na frente no final de uma corrida, primeiro tem que se chegar no final de uma corrida!

    Abraco!

    Roberto Figueroa
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  2. Essa situação ocorrida reforça minha idéia de que, como para todo lazer, é necessário respeitar algumas regras (no caso as da competição) e, principalmente, ser prudente (segurança do piloto em todos os sentidos).

    De nada adiante ter um carro rápido sem qualquer equipamento de segurança. Ou tê-los de forma inadequada, que é ainda pior. É como uma roleta russa.

    Eu me borro todo quando vejo o nosso 147 passar a quase 200 Km/h e sem nenhuma estrutura, tendo apenas sua lata de mais de 20 anos como proteção. Dá um frio na espinha. Tanto é que eu não corro mais com ele. No meu caso, eu (e mais um monte de gente) jamais imaginei que o carro fosse chegar nesse patamar e mesmo assim assusta pensar em um acidente como esse com o 147.

    Esta iniciativa de mostrar a necessidade de investir primeiro em segurança e depois em desempenho é vital. Para ter mais potência basta ter mais pressão no turbo. Para a segurança a conversa é bem diferente.
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