segunda-feira, 26 de julho de 2010

TEMOS O QUE É PRECISO


Estamos a 25 dias da ND2 e em 4 dias a lista já tem 86 inscrições de um total limitado a 201 .

O número chama a atenção. Apenas continuando neste ritmo em poucos dias não haverá mais vagas para participar desta edição do evento. E pensar que ouvi tantas vezes que não dá para fazer nada por aqui porque não tem carros...

Já contei que minha experiência com automobilismo de competição se iniciou nas provas de circuito. Tive sorte, participei de campanhas vitoriosas em uma categoria de base com Egon Herzfeldt, que chegou a criar um novo "standard" para quem queria pilotar nesta modalidade.

Mais tarde vi Tarumã lotado para as disputas da F2 sulamericana, com os argentinos, uruguaios e chilenos lutando para vencer os brasileiros. Não posso negar que havia uma certa aura de heroismo na prática do esporte.

Acompanhei de dentro as vitórias do gaúcho Leonel Friedrich contra a capacidade argentina e o
dinheiro paulista- na maioria das vezes, acompanhado por bons pilotos . Eram adversários que davam valor e dimensão às disputas.

Leonel levava em seu capacete as cores do Rio Grande em uma bandeira estilizada. E uma pequena cuia de chimarrão ao lado de seu nome para garantir que sua origem gaúcha fosse reconhecida. Estes pequenos detalhes se encarregaram de ajudar a motivar uma geração de torcedores a ir às corridas e a reconhecer um ídolo verdadeiro.

Conheço bem o processo. Pintava os capacetes, e a motivação fazia com que fosse mais que um simples negócio. Quando Leonel ia para pista, era como se levasse um pouco de todos nós com ele. Fomos vencedores.

Desde aquela época muita coisa mudou, e reconheço que a aura de heroismo e ingenuidade se perdeu. O automobismo assumiu sua vocação de entretenimento popular. Com o tempo emergiram espetáculos administrados por profissionais, que conseguiram aceitação popular e a consequente receita dos patrocinadores que precisam colocar suas marcas em frente a uma multidão de consumidores.

Com isso, o automobilismo como espetáculo regional foi sucumbindo aos poucos, sacrificado pelo não entendimento de suas caracteristicas básicas. Uma mistura de ganância e a ignorância de que tudo começa por uma boa base.

O povo, que não é bobo, simplesmente foi abandonando os autódromos em busca de outras opções.

Neste ponto chegamos à relevância da arrancada no cenário atual. O espectador comum de televisão, bombardeado há dezenas de anos pela cultura da F1, não conhece e nem recebia informação nenhuma sobre esta modalidade do automobilismo. Mesmo assim, o esporte cresceu nas sombras durante uma década e meia.

Existem algumas mudanças neste panorama graças ao Canal Speed (Speed Channel) que passou a ter um programa que fala da arrancada oficial nacional e traz um pouco do que é este esporte e as maneiras de ser praticado fora do Brasil. Um esporte que nasceu basicamente junto com os automóveis, sempre foi popular pois estava ao alcance do trabalhador comum, do jovem, do apaixonado por mecânica, e hoje já é mais popular que o futebol em muitos paíises.

Na nação que o criou oficialmente, não é um esporte FIA e nem se submete às suas regras. Tem sua base solidamente estabelecida nos amadores que, literalmente, enchem dezenas - às vezes centenas - de pistas a cada final de semana, apesar da alardeada crise econômica que aquele país vive.

Assim voltamos à ND2. O grupo de jovens que formou a Associação Desafio - e hoje vai muito além - desde quecomeçou a competir em provas amadoras, em 2006, procurou estabelecer parcerias com o objetivo de fazer bons eventos. Eventos com capacidade para atrair os jovens das ruas para as pistas, de trazer quem tinha um carro e estava parado e para mostrar ao público disputas de valor.

Foram quatro anos de resultados às vezes animadores, às vezes desastrosos. Uma montanha russa que mostrou rapidamente porquê tantos que gostam tanto do esporte se conformam a deixar os carros hibernando em uma garagem ao invés de ir à pista.

Em um destes momentos, a AD tentou mais uma nova parceria com o Racha Tarumã. O Racha tem 13 anos de existência - isso com certeza é um recorde, ainda mais que tem média de público melhor que o gaúcho de futebol - e para a AD representou, pela primeira vez, um parceiro disposto a fazer as coisas acontecerem.

O resultado fala por si: mais de 230 carros na pista no primeiro evento com a maior receita e público de 2010 de acordo com a administração de Tarumã. E o segundo evento, ND2 limitou as vagas em 201, enquanto outros lutam para colocar pouco mais de 50 carros.

É importante ressaltar duas coisas: não há enganação nestes números. São 201 inscritos e não 201 inscrições com um piloto se inscrevendo várias vezes no sistema de categorias. É comum os alto falantes em um evento anunciarem 13o inscrições e o público não ver nem 70 carros. Afinal, o público esta lá para ver os carros, e onde eles estão?

Na ND2 uma inscrição é uma inscrição e ponto. Se houver 201 inscrições válidas, este é o número de carros e pilotos na pista. Isto é respeito ao público. E o público dá mostras de que sabe disso.

O segundo aspecto diz respeito à qualidade média dos competidores. Nas mais de 80 inscrições já feitas, 10% são compostas por carros V8 de qualidade e 80% de turbos. Carros turbo são uma paixão popular e pedem grande comprometimento de seus proprietários. Pedem empenho e dedicação e retribuem com desempenho que deixariam um F1 encabulado. Quem tem ou teve um, sabe bem do que estou falando.

Esta qualidade, que é impulsionada por conhecimento made in Brazil e novas tecnologias, mostra o quanto a arrancada amadora evoluiu paralelamente aos fracos eventos oficiais. Aqueles que custam caro para os promotores, pra pista , pilotos e público e tem muito a provar para serem reconhecidos como válidos.

O mundo out law está mostrando a sua cara e só se surpreende quem não conhece seu povo. Caso houvesse espaço e tempo em Tarumã, seria possível fazer um evento com 300 carros ou mais. Os competidores não só existem, como anseiam em ir para a pista.

Tenho ouvido depoimentos surpreendentes. Sergio Fontes, que pode ser considerado uma das estrelas da AD por sua capacidade de vencer e fazer as coisas com empenho e dedicação, antes de levar o 1º TOP 16 de Tarumã , comentou comigo que "Tarumã traz de volta o velho espírito que conhecia na arrancada. Ali é preciso pilotar o carro, entender a pista para depois enfiar o pé no fundo do acelerador". Sua vitória demonstrou o quanto estava correto.

Seu adversário na final, Paulo Rebelo ( o Paulinho do Chevete vermelho) também está motivado para esta segunda etapa. "Já combinamos. Se vencermos, vamos terminar uma obra que falta para concluir nossa oficina e fazer um grande churrasco para os amigos".

Isso demonstra que a premiação em dinheiro traz mais que um simples valor monetário, traz também reconhecimento do esforço do competidor. É a verdadeira motivação.

As inscrições já feitas até agora revelaram mais um dado muito importante. Já temos participantes de 19 cidades inscritos e até um de outro estado. Porto Alegre, Alvorada, Guaiba, Viamão, Gravatai, Cachoeirinha, Criciuma, Campo Bom, Canoas, Capão da Canoa, Bagé, Xangri-Lá, Nova Santa Rita, Esteio, São leopoldo, Caxias do Sul, Pelotas, Portão e Bento Gonçalves são as cidades até este momento, e existem perspectivas de mais algumas.

E um nome se destaca: o administrador de Tarumã, Marcio Pimentel , que acreditou que é possível trazer um bom espetáculo de arrancada para o público sem criar custos desmedidos para os paticipantes.

Dá para dormir feliz. A arrancada amadora em Tarumã tem tudo o que precisa.

1 comentários:

Gustavo Herdt Westrup disse...

Criciuma!!! hehe

To divulgado pro povo "incarnado" daqui, mas sabe como é.. Carros mais preparados qdo nao tao na oficina, precisam de carretinha pra levar e tals.. Aih é mais dificil o povo querer ir... Mas em breve irá mais gente!!

Eu vou com o Peugeotzinho, rodando e volto rodando... uns 600..700Km de ida e volta =)

Vamos lá encomodar e ver se desço pra casa dos 9s =)