O TOP16 é uma competição que tem sua própria história. É único no Brasil, e só nele podemos ver os 16 carros mais fortes e eficientes de um evento se enfrentando diretamente. Para quem conhece, lembra um pouco Pinks All Out mas é ainda mais livre e mais imprevisível em seus resultados.
A partir da ND2, a recompensa aos vencedores do grupo é em dinheiro , ali, ao vivo, na hora, na pista para que nem público nem pilotos tenham dúvida de quem é o vencedor. Esta é uma ideia antiga da AD - digo que está no seu DNA - e que encontrou no diretor de Tarumã, Marcio Pimentel, um promotor de eventos com a coragem de fazer acontecer. Essa é a verdadeira paixão pela competição.
Conto tudo isso para quem está longe poder sentir o "clima", que era quente, mesmo com a tradicional noite fria de Tarumã. Conforme a lista de inscrições antecipada foi se completando, víamos carros de grande qualidade e que vinham precedidos de sólida reputação. E esta é uma das características mais enraizadas da arrancada: o prestígio e o fascínio de carros, pilotos e oficinas que a comunidade da performance reconhece como fortes e vencedores.
Durante os treinos livres e depois, na classificação para o campeonato e TOP16, começaram as definições. Alguns - mesmo estreantes nesta competição - confirmaram o que se esperava deles e surgiram com força neste cenário onde se você quer ser vencedor, tem de encarar qualquer adversário. O tratamento da pista com o composto aderente (VHT) da LUCXIS Quimica foi decisivo, e os tempos cairam. Tudo o que se fala sobre a não aderência do piso de Tarumã foi colocado em um nível secundário e muitos recordes pessoais foram superados.
A lista dos classificados mostrou um surpreendente raio X do que foi a ND2.
1- Paulo Rebelo - Chevette AP Turbo
2 - Alex do Rego Machado - Chevete Turbo
3 - Alexandre Kroeff - Maverick V8 Aspirado
4 - Douglas Carbonera - Opala SS6
5 - Adriano Viganigon Dodge Charger Bi-turbo (Bulls Eye)
6 - Bruno Pianca- Fusca AP Turbo
7 - Rafael Pires Grillo - Astra belga 16v Turbo Nitro
8 - Rafael Andreis - Eclipse 4x4 turbo
9 - Johelmar Brum de Souza - Gol Turbo ( de radiais)
10 - Sérgio Fontes - Gol Turbo
11 - Leonardo Flores - Fusca AP Turbo
12 - Gustavo de Almeida Stock - Fiat FIASA Turbo Nitro
13 - Dionatan Cantarelli da Silva - Gol Turbo
14 - Rodrigo Kingeski dos Santos - Gol Aspirado
15 - Rodrigo Pulita - Dodge Nitro
16 - Allan Pasa - Dodge Aspirado
Esta, com certeza, é uma lista de respeito e nem o mais inveterado jogador ia querer botar dinheiro em um palpite.
Mas nem todos puderam entrar na pista para disputar o dinheiro da eliminatória. Allan Pasa e Adriano Viganigon, que vieram de cidades mais distantes (Pasa veio de Bento Gonçalves) tiveram de pegar a estrada para voltar. O público, e quem gosta de arrancada, lamentou, pois os dois carros são um show à parte.
Outro carro muito forte - já venceu um TOP16 no Velopark- que ficou de fora foi o Astra belga de Rafael Grillo. Um selo de água do cabeçote caiu quando ele ligava o carro para levar para o alinhamento, e terminou com a sua noite. Não acharam o selo nem para tentar colar... mesmo assim , Rafael estava satisfeito porque tinha uma das melhores marcas de 60 pés da noite, no piso em aclive e com um tração dianteira. E sabe que a próxima ND3 já está no horizonte.
Como já é tradicional, os lugares foram preenchidos pelo classificados imediatamente abaixo em condições de competir, e os V8 assumiram novamente suas posições no grid. Sua velocidade e confiabilidade sempre os coloca nos TOP20 em um grupo de mais de 130 carros - sendo a maioria turbos.
Com tudo preparado, pudemos ver figuras conhecidas. Paulo Rebelo, Sergio Fontes, Alexandre Kroeff, Gustavo Stock, Leonardo Flores, Rafael Andreis. E agora também Alex Machado e Bruno Pianca, além do estreante em TOP16 Douglas Carbonera (veterano em campeonatos nacionais). Na outra ponta, Luciano Senhen, Diego Zottis, Rodrigo Kingensky, Rodrigo Pulita, Jhoelmar Brum, Gilberto Quadros e Dionatan Cantarelli.
Este foi o melhor grupo reunido em um TOP16 até esta data. Veloz, com qualidade, carros legais, uma síntese do que se espera de uma prova de arrancada. No início do TOP as coisas correram com certa tranquilidade e venceram os big dogs. Carbonera, Fontes, Andreis, Rebelo, Kroeff, Stock e Pianca passaram por seus adversários. Ainda assim, não era, de maneira alguma, algo certo e previsível a vitória conquistada por Sergio Fontes em cima do Fusca de Flores. E ainda estabeleceu uma nova marca para os tração dianteira com 7.9 nesta puxada.
.
Como ocorre desde o primeiro, em TOP 16 só é certo que nada é certo...
E tudo começa a mudar rápido. O Opala SS Laranja venceu, mas está fora, não volta para pista e corre a notícia que a embreagem o deixou na mão. O Eclipse 4x4 que venceu seu primeiro adversário e era candidato à vitória também está fora com um problema de motor que não pode solucionar.
A equação muda, mas o que vemos? Fontes, Kroeff, Stock, Alex Machado, Rebelo e Pianca. Veteranos da AD X veteranos do Racha. E isso não foi por acaso, pois ao longo do tempo aqui no sul, aprendemos que estas são as competições que prezam a vitória e quem participa delas aprende a lutar para vencer. O que já era emocionante passa para o estágio de sem palavras. Alguém aí está pensando :"não é bem assim, está exagerando"... mas o que dizer de um confronto entre o V8 mais acertado da noite e um Fiat 147 1.5 Fiasa? Vou esperar uma explicação dos teóricos de plantão. Enquanto ela não chega, vemos um Davi contra Golias encarando juntos o pinheirinho. Quem não conhece, fica imaginando como aquele 147 chegou ali.

Kroeff, que não é bobo, reage melhor e sai em vantagem. Stock "dorme" um pouco na reação e isso lhe custa a oportunidade de aumentar sua fama. O tempo dos carros é praticamente igual , a pilotagem fez a diferença, e o Maverick vai à frente, enquanto o piloto do Fiat vira público. Alexandre (o piloto) matou o Fiat... desta vez.
.
A competição continua, o show não vai parar, e agora vem algo que era realmente esperado: a "revanche" de Fontes e Rebelo. A repetição da final anterior, na semifinal definida pela combinação da chave. Sem dúvida, esta era a disputa esperada para a noite e aconteceu mesmo. Antes de contar esta disputa, tenho de fazer uma pausa.
Este TOP16 foi o primeiro a premiar em dinheiro. Cada vitória dava ao competidor 100 reais e um bônus de 300 reais na vitória final. Foi amplamente anunciado e muito comentado. Mesmo assim, quando os pilotos começaram a vencer e começamos a pagar, ali na pista, eles não acreditavam... A coisa mais engraçada e emblemática que ouvi naquela noite aconteceu quando Pimentel (diretor do Autódromo e promotor do evento) foi entregar o prêmio a um piloto e ele , olhando incrédulo nos perguntou: "é sério mesmo ou tenho de devolver quando terminar?"
Essa foi a demonstração mais clara que pude testemunhar de quanto o reconhecimento do valor de uma vitória está longe das pistas brasileiras de arrancada. É um compromisso da ND, Racha Tarumã e Associação Desafio continuar trabalhando para mudar esta situação.
Voltando a Rebelo e Fontes, posso dizer que foi uma batalha este confronto. O Fontes que conheço é um cara organizado e persistente. Tem suas convicções e se guia por elas, não é de desistir fácil. Está novamente em uma semifinal e, se um desavisado das coisas daqui olhasse apenas a classificação, poderia pensar que ele seria eliminado rapidamente. O que seria um grande erro de avaliação.
Na pista ao lado, Paulo e seu Chevette APTurbo. Estive nas sextas feiras do Racha e vi Paulo e seu time trabalhando, testando novas configurações de injeção, novo combustível e onde poderiam fazer o carro render mais. Conversando com Paulo, ele explicou que estavam trabalhando para vencer e que o pessoal estava motivado. Se vencessem, iriam terminar uma obra em sua oficina e fazer um churrasco para os amigos . Antes do TOP16, a equipe do Chevette se manteve reunida em volta do carro, com o capuz dos moletons cobrindo a cabeça e lembravam um pouco integrantes de uma seita com uma missão... É uma brincadeira , mas muitas pessoas viram e tiveram a mesma sensação.
A hora chegou, os carros alinhados, a revanche é agora. O pinheirinho cai e o Chevette salta, engata a segunda e salta novamente , o primeiro trecho é fulminante. Desta vez, o Gol não tira nada da cartola e não consegue acompanhar, não tem espaço para recuperar terreno.
Vitória inesquecível de Paulo Rebelo.
Agora o jogo entre os dois pilotos está 1 x 1 e, a julgar pelo empenho dos dois, não ficará assim por muito tempo.
Esta foi a semi final que valeu como uma final! Mas ainda não acabou, e a outra semi tem o Maverick de Alexandre e outro Chevette Turbo de Alex Machado. Um veterano e um estreante em TOP 16, uma equipe de pai e filho que vem vindo com força durante a noite.
Tudo pronto no alinhamento e vai acontecendo uma discussão sobre quem seria o favorito. Muitos apontam a habilidade de Kroeff - que entendeu como superar a inclinação de Tarumã - seria um fator de decisão. Além disso, ninguém lembra de um erro dele em uma disputa.
O pinheirinho cai e o Chevette larga com a reação melhor, mas o Maverick recupera o espaço e nos 100m já está um pouco à frente e vai superando... mas aí Kroeff erra uma marcha! Perdeu... o imprevisível está de volta e ele vai pra casa mais cedo.
Na final, dois Chevettes Turbo, modelo hatch. Algo que nem se vê mais nas ruas, algo com a mesma possibilidade de ter todos os ases do baralho em uma mesma mão! Bem vindos ao TOP16.
Os dois carros são rapidamente alinhados para final e fico pensando: "será que Paulo não sacrificou o carro para vencer Fontes?" Estou a poucos minutos de saber.
Quando o pinheirinho cai pela última vez na noite, a disputa que seria apertada se desfaz. Alex, pressionado, queima e o Chevette de Paulo é novamente o vencedor. E com um tempo bom mesmo assim.
Mas onde está ele? O Chevette demora e quando surge, vem rebocado pela Saveiro de serviço de Tarumã. "O que houve?", perguntamos. " Deu problema de junta" responde Paulo... e complementa, "junta tudo e bota fora" e sai caminhando em direção às fotos, troféus e dinheiro com o sorriso que quem já venceu sabe qual é.

Perto de onde estou , vejo Rafael (Astra Belga 888), olhando tudo, ali no centro da pista, cercado pelo público da arquibancada e do pit lane, sentindo o clima de uma arena de competições verdadeira e, feliz, me sai com essa : "bah, tô dentro do meu sonho, olha só, parece Pinks, mas é aqui, é melhor, é nosso, é de verdade!".
Não tenho melhor definição.
Acho que se ficar melhor, estraga.


















3 comentários: