segunda-feira, 15 de novembro de 2010

VENCER OU MORRER

 



        E lá fomos nós para Noite do Desafio 3. Depois de três adiamentos meio acidentados, devido à falta de condições climáticas, e já entrando no feriadão mais esperado do ano. Desde a quinta feira as estradas que saem de Porto Alegre e arredores já apresentavam movimento acentuado. A partir do meio dia de sexta, com tempo bom, o tráfego explodiu. Quando me dirigia à pista e via a massa de gente puxando em seus reboques as mais variadas coisas (menos carros de arrancada...) na direção contrária, temi que desta vez a mágica não fosse funcionar. Afinal, preso aos meus próprios pensamentos, senti que todos são humanos, feriadão é feriadão aqui no sul - praia, sol, cerveja - e que arrancada era apenas mais uma opção para noite de sexta.

      O negócio era apagar isso da cabeça e ir fazer o melhor para os que viessem. O compromisso com uma boa prova, um bom show para o público, continua sempre. Chegando na pista esta é uma preocupação que se desfaz - e vamos ao trabalho. O grupo da AD que trabalha em colaboração com Tarumã já está checando a reta e vendo o estado do tratamento. Tudo OK. Na verdade, mais que OK. O VHT está  emborrachado, na condição ideal. Precisava um retoque na linha de partida e isso foi rapidamente encaminhado pelo pessoal do autódromo. Também foram repintadas as linhas de largada e caixa de burnout e dividida a pista para organizar os carros até a alinhamento.




     O tempo vai voando, pessoal da cronometragem arma seu circo e vai testando  tudo. Os carros começam a chegar e dá para começar a sorrir. Nessa hora, sempre há o consolo de que se o público não responder, pelo menos os pilotos sabiam que estaríamos lá preparados. Devido às chuvas constantes e os consequentes adiamentos, a ND3 acabou coincidindo com o retorno do Campeonato Gaúcho de Motociclismo à Tarumã, há muito esperado, o que diminuiria o número de boxes para o pessoal da arrancada. Realizando um bom trabalho, a administração do autódromo conseguiu disponibilizar vários boxes para o pessoal, e mais um problema foi equacionado.

      O número de carros começa a aumentar e temos  eletricidade no ar. Quem chega, diz que tem mais gente vindo, pede para  estender as inscrições, que as estradas estão lentas, mas que o pessoal está vindo. A partir deste momento, dá para identificar que a premiação em dinheiro e a competição verdadeira estavam mexendo com o pessoal. O treino se inicia e fica evidente que os carros estão puxando forte. Lentamente (ao menos para mim ) o público começa a colorir a arquibancada. A pista também vai se enchendo de caras conhecidas, carros fortes, tempos baixos, muitas surpresas...

     A noite avança e os números começam a ficar bons. Os carros não param de chegar e concordamos  que devido à situação - horário de verão, feriadão, estrada lotada com dificuldade de trânsito - seria justo dar mais um tempo para o pessoal. Decisão acertada. Os números começam a subir rapidamente e quando olho a pista, para liquidar com minha incredulidade, a arquibancada está quase tomada! 

     A reta ficou em grande forma. Carros rápidos, arrancando para valer e andando no trilho. As marcas caindo e a nova sensação da noite, o prêmio de 1000 reais para quem atingisse a marca de 180km/h nos 201m entusiasma o público a cada tentativa. Tarumã pode ser reconhecido como a casa da arrancada nesta região do estado. Muitos pilotos começaram a acelerar no Racha  uma década atrás e, ainda hoje, é o lugar mais  amigável e acessível para quem está começando. E o público, que resistiu ao feriado e veio a Tarumã torcer, recebeu um belo espetáculo. Participou ativamente - ainda não havia visto de forma tão clara - escolheu seus favoritos e se divertiu.

       A turma do litoral estava lá, a da serra também e com eles a disposição de botar a mão nos mil e encarar o TOP16. Logo apareceu o primeiro candidato: o Eclipse dos irmãos Andreis. Bateram em cima da marca dos 180 ainda nos treinos. Só faltava a confirmação na classificação ou nas eliminatórias, tinha tempo... Nós imaginávamos que a marca dos 180 não cairia antes do final do ano pelo menos, dando tempo  da grana acumular mais. Afinal, Tarumã tem a fama de  ser pouco aderente, é em subida, o asfalto está gasto e tem buracos exigindo grande habilidade dos pilotos para obter resultados. Grande engano. Logo depois, o fusca APturbo de  Marcio CPEL Freitas também cravou 180. E botou fogo de vez na disputa!



   O fogo também acabou virando estrela da noite. Fogo e álcool foram usados para limpar os resíduos de óleo que caiam na pista. A pista aderente e a vontade de ir para cima na classificação cobraram seu preço. Em nenhuma das outras noites houve tantas quebras catastróficas - aquela que quebra mesmo, voa pedaço, sem solução e o óleo vai pro chão. De lá tem de sair para não comprometer a segurança  dos pilotos. Como estavam sentindo confiança no piso, arriscaram muito. Derrapagens, correções, grandes v8 subindo a reta de lado, perseguindo os foguetes turbo peso leve.

       A próxima tentativa  para  o prêmio foi do Eclipse e  ele marcou... 178km! Raspou a trave como se fala no país do futebol - e da arrancada. Olhando as parciais da fotocélula enquanto os carros corriam, Fabio Andreis (o irmão preparador) já via o dinheiro na mão. Quando cruzam a linha, a ficha cai e Fabio não se conforma. Não tem jeito e Marcio CPEL vai para a pista mais uma vez e o público tem um vencedor - mais uma marca de 180!

      O Eclipse esteve tão perto e tão longe. Logo após, entra na pista de novo e chega a 187km, a melhor marca da noite, mas é tarde demais. A noite era de Marcio. Quando sai a classificação para o TOP16, a lógica aponta que os finalistas serão novamente Marcio CPEL e Rafael Andreis. Começam as disputas e eles vão vencendo seus adversários. Em TOP16, competição pura e direta, nada é garantido. Nós, que somos veteranos no negócio, aprendemos isso. O Fusca de Marcio superaquece (o que o poria a nocaute ), mas sua experência faz com ele rapidamente sinta o problema, corte o motor e role o carro de volta desligado para o alinhamento. Chegando lá descobre que soltou uma mangueira de água. Avisado que tinha  5 minutos para alinhar, conserta rapidamente e volta para  a linha, recebe os 100 reais da vitória anterior e vai encarar novo adversário.

     Com o Eclipse, algo parecido. Motor aquecendo na linha de largada, "voa" a correia do alternador e bomba d'agua. "Quer  tempo?", perguntamos. "Não, vou arrumar aqui e agora", responde Fabio. Vai com  a mão sem luva tentar colocar a correia com seu irmão tocando arranque para ajudar. Custei a acreditar que ele  estava arriscando os dedos... Em questão de segundos, parti para cima dele para impedir mas ele já havia colocado! "Pô gringo, tá barata a cirurgia de reimplante de dedo..." O que faz a vontade e a determinação  em uma competição que os participantes valorizam!

     Para completar,  a final acabou mesmo entre o carro com a melhor performance, o Fusca, contra o mais veloz, o Eclipse. Para um, o VW, uma afirmação de tudo que fez  nesta noite espetacular. Para o Eclipse e seu time, a vitória seria a redenção por um ano de muito trabalho e falhas difíceis e inesperadas que fariam  a maioria desistir e ir tentar outro esporte.








video

     Lado a lado, na linha, de frente para o pinheirinho cada um sabe o que já passou até chegar ali. A luz cai, os carros largam, o Eclipse se mexe primeiro - a vontade é grande - e queima!  Game over... Mesmo assim, os dois descem a reta com o espírito da arrancada...


 Na volta, em plena reta, em frente aos amigos e do público, que teima em resistir à noite fria como inverno já às portas do verão, um Marcio feliz e emocionado. Com o troféu, o dinheiro, o abraço. E, principalmente, com suas lembranças do início do Racha, ainda jovem, quando sonhava com o locutor Perna narrando uma vitória sua na reta de Tarumã. Esse sonho, Marcio já pode riscar da lista.  Rafael, também veio para o abraço, mas não conseguia esconder as lágrimas. Esta derrota doeu. Eu conheço a dupla e sei que isso vai torná-los mais fortes. Tiro meu chapéu para eles também.


video

     Se você ler este texto e imaginar, por um minuto, que estou inventando isso ou que exagero os fatos, converse com alguém que esteve lá. De novo, a arrancada brilhou na noite do Rio Grande. O que contei é uma pequena amostra do que tem rolado por aqui, neste nosso canto do mundo, onde se vive com muita emoção. Na verdade, esta é apenas uma história entre tantas desta noite.

       Se ainda assim não acreditar,  crie coragem e venha conferir. Será recebido de braços abertos e terá a chance de descobrir porquê este esporte é tão amado no mundo e tem sua cultura toda própria.




       A todos que fizeram desta Noite do Desafio3  mais um capítulo inesquecível no caminho da arrancada que queremos, um grande abraço.  Não pensem que esqueci: sim, a arquibancada lotou. De novo. Agora em um feriadão. Sim, a arrancada é popular!

       Lembrem-se da promessa: "uma prova de cada vez..."


Fotos e vídeos: Rita Copetti de Queiroz

    
      

4 comentários:

  1. tao perto e tao longe ao mesmo tempo!

    Particularmente foi a mais emocionante de todas as etapas que ja participamos. Desde o inicio do dia, com nosso segundo carro prontinho para participar da festa e mais uma vez um problema de ultima hora acaba deixando ele de fora.

    Depois a marca de 180 parecia ser coisa imbativel dentro de ulguns meses, mas logo na segunda passada alcancamos a marca. Bastava apenas mais uma apenas. 174, 175, 178 e se eu nao estiver muito louco, a cada passada tanto do eclipse quanto do fusca o publico soltava aquele hhuuuuuu.......assim como uma bola na trave em final de campeonato........ISSO NAO TEM PRECO! O fusca bate novamente os 180 e leva o premio....em seguida um 187 so pra deixar o sabor de que nao era para ser desta vez.

    Final do TOP 16. Entre os dois carros mais rapidos. Acabamos queimando na vontade de tirar os 2 decimos de vantagem do fusca na reacao. Fica para a proxima.

    O espetaculo esta cada vez melhor, os carros estao mais rapidos e constantes e certamente temos o maior espetaculo de arrancada do pais. Parabens MARCOLINO E TARUMA.

    ResponderExcluir
  2. Se tu esta vendo coisas, então também estou...

    É verdade, o publico estava participando, os locutores explicaram o que estava acontecendo e eles sabiam da disputa pelo dinheiro.

    Eu posso dizer desta noite que foi a melhor experiência que tive até agora em corridas de arrancada. Muita gente, mas muita gente mesmo foi para a pista para correr e os resultados estão aparecendo.

    Esta todo mundo de parabens e tu especialmente, por continuar com todos os dedos!

    ResponderExcluir
  3. Parabéns para a AD. Sem sombra de dúvidas o melhor espetáculo da arrancada do momento. Na realidade, o melhor espetáculo de arrancada já visto por alguém aqui no Brasil.

    Aos vencedores da noite, Fusca CPEL, GSX Drag Race e Zottis, meus parabéns. Vocês ajudaram a escrever mais um pouquinho da nossa história. Gostaria de ter escrito com vocês, mas infelizmente meu carro me deixou na mão novamente.

    Mas a gente se encontra lá de novo na ND4/5 de Natal!

    Um grande abraço e parabéns Marquinho, tá cada vez melhor e mais surpreendente.

    ResponderExcluir
  4. TRAS A NOITE DO DESAFIO PRA BH TAMEM TA FALTANDO INCENTIVO AQUI A PISTA ENCHE DE GENTE MAIS FALTA UM POUCO DE OBJETIVO OS CARROS CORREM MAIS NUM DISPUTAM NADA TEM CADA PUXADA VALER ALGUMA COISA.

    ResponderExcluir