E lá fomos nós para Noite do Desafio 3. Depois de três adiamentos meio acidentados, devido à falta de condições climáticas, e já entrando no feriadão mais esperado do ano. Desde a quinta feira as estradas que saem de Porto Alegre e arredores já apresentavam movimento acentuado. A partir do meio dia de sexta, com tempo bom, o tráfego explodiu. Quando me dirigia à pista e via a massa de gente puxando em seus reboques as mais variadas coisas (menos carros de arrancada...) na direção contrária, temi que desta vez a mágica não fosse funcionar. Afinal, preso aos meus próprios pensamentos, senti que todos são humanos, feriadão é feriadão aqui no sul - praia, sol, cerveja - e que arrancada era apenas mais uma opção para noite de sexta.
O negócio era apagar isso da cabeça e ir fazer o melhor para os que viessem. O compromisso com uma boa prova, um bom show para o público, continua sempre. Chegando na pista esta é uma preocupação que se desfaz - e vamos ao trabalho. O grupo da AD que trabalha em colaboração com Tarumã já está checando a reta e vendo o estado do tratamento. Tudo OK. Na verdade, mais que OK. O VHT está emborrachado, na condição ideal. Precisava um retoque na linha de partida e isso foi rapidamente encaminhado pelo pessoal do autódromo. Também foram repintadas as linhas de largada e caixa de burnout e dividida a pista para organizar os carros até a alinhamento.
O tempo vai voando, pessoal da cronometragem arma seu circo e vai testando tudo. Os carros começam a chegar e dá para começar a sorrir. Nessa hora, sempre há o consolo de que se o público não responder, pelo menos os pilotos sabiam que estaríamos lá preparados. Devido às chuvas constantes e os consequentes adiamentos, a ND3 acabou coincidindo com o retorno do Campeonato Gaúcho de Motociclismo à Tarumã, há muito esperado, o que diminuiria o número de boxes para o pessoal da arrancada. Realizando um bom trabalho, a administração do autódromo conseguiu disponibilizar vários boxes para o pessoal, e mais um problema foi equacionado.
O número de carros começa a aumentar e temos eletricidade no ar. Quem chega, diz que tem mais gente vindo, pede para estender as inscrições, que as estradas estão lentas, mas que o pessoal está vindo. A partir deste momento, dá para identificar que a premiação em dinheiro e a competição verdadeira estavam mexendo com o pessoal. O treino se inicia e fica evidente que os carros estão puxando forte. Lentamente (ao menos para mim ) o público começa a colorir a arquibancada. A pista também vai se enchendo de caras conhecidas, carros fortes, tempos baixos, muitas surpresas...
A noite avança e os números começam a ficar bons. Os carros não param de chegar e concordamos que devido à situação - horário de verão, feriadão, estrada lotada com dificuldade de trânsito - seria justo dar mais um tempo para o pessoal. Decisão acertada. Os números começam a subir rapidamente e quando olho a pista, para liquidar com minha incredulidade, a arquibancada está quase tomada!
A reta ficou em grande forma. Carros rápidos, arrancando para valer e andando no trilho. As marcas caindo e a nova sensação da noite, o prêmio de 1000 reais para quem atingisse a marca de 180km/h nos 201m entusiasma o público a cada tentativa. Tarumã pode ser reconhecido como a casa da arrancada nesta região do estado. Muitos pilotos começaram a acelerar no Racha uma década atrás e, ainda hoje, é o lugar mais amigável e acessível para quem está começando. E o público, que resistiu ao feriado e veio a Tarumã torcer, recebeu um belo espetáculo. Participou ativamente - ainda não havia visto de forma tão clara - escolheu seus favoritos e se divertiu.
A turma do litoral estava lá, a da serra também e com eles a disposição de botar a mão nos mil e encarar o TOP16. Logo apareceu o primeiro candidato: o Eclipse dos irmãos Andreis. Bateram em cima da marca dos 180 ainda nos treinos. Só faltava a confirmação na classificação ou nas eliminatórias, tinha tempo... Nós imaginávamos que a marca dos 180 não cairia antes do final do ano pelo menos, dando tempo da grana acumular mais. Afinal, Tarumã tem a fama de ser pouco aderente, é em subida, o asfalto está gasto e tem buracos exigindo grande habilidade dos pilotos para obter resultados. Grande engano. Logo depois, o fusca APturbo de Marcio CPEL Freitas também cravou 180. E botou fogo de vez na disputa!
O fogo também acabou virando estrela da noite. Fogo e álcool foram usados para limpar os resíduos de óleo que caiam na pista. A pista aderente e a vontade de ir para cima na classificação cobraram seu preço. Em nenhuma das outras noites houve tantas quebras catastróficas - aquela que quebra mesmo, voa pedaço, sem solução e o óleo vai pro chão. De lá tem de sair para não comprometer a segurança dos pilotos. Como estavam sentindo confiança no piso, arriscaram muito. Derrapagens, correções, grandes v8 subindo a reta de lado, perseguindo os foguetes turbo peso leve.
A próxima tentativa para o prêmio foi do Eclipse e ele marcou... 178km! Raspou a trave como se fala no país do futebol - e da arrancada. Olhando as parciais da fotocélula enquanto os carros corriam, Fabio Andreis (o irmão preparador) já via o dinheiro na mão. Quando cruzam a linha, a ficha cai e Fabio não se conforma. Não tem jeito e Marcio CPEL vai para a pista mais uma vez e o público tem um vencedor - mais uma marca de 180!
O Eclipse esteve tão perto e tão longe. Logo após, entra na pista de novo e chega a 187km, a melhor marca da noite, mas é tarde demais. A noite era de Marcio. Quando sai a classificação para o TOP16, a lógica aponta que os finalistas serão novamente Marcio CPEL e Rafael Andreis. Começam as disputas e eles vão vencendo seus adversários. Em TOP16, competição pura e direta, nada é garantido. Nós, que somos veteranos no negócio, aprendemos isso. O Fusca de Marcio superaquece (o que o poria a nocaute ), mas sua experência faz com ele rapidamente sinta o problema, corte o motor e role o carro de volta desligado para o alinhamento. Chegando lá descobre que soltou uma mangueira de água. Avisado que tinha 5 minutos para alinhar, conserta rapidamente e volta para a linha, recebe os 100 reais da vitória anterior e vai encarar novo adversário.
Com o Eclipse, algo parecido. Motor aquecendo na linha de largada, "voa" a correia do alternador e bomba d'agua. "Quer tempo?", perguntamos. "Não, vou arrumar aqui e agora", responde Fabio. Vai com a mão sem luva tentar colocar a correia com seu irmão tocando arranque para ajudar. Custei a acreditar que ele estava arriscando os dedos... Em questão de segundos, parti para cima dele para impedir mas ele já havia colocado! "Pô gringo, tá barata a cirurgia de reimplante de dedo..." O que faz a vontade e a determinação em uma competição que os participantes valorizam!
Para completar, a final acabou mesmo entre o carro com a melhor performance, o Fusca, contra o mais veloz, o Eclipse. Para um, o VW, uma afirmação de tudo que fez nesta noite espetacular. Para o Eclipse e seu time, a vitória seria a redenção por um ano de muito trabalho e falhas difíceis e inesperadas que fariam a maioria desistir e ir tentar outro esporte.
Lado a lado, na linha, de frente para o pinheirinho cada um sabe o que já passou até chegar ali. A luz cai, os carros largam, o Eclipse se mexe primeiro - a vontade é grande - e queima! Game over... Mesmo assim, os dois descem a reta com o espírito da arrancada...
Na volta, em plena reta, em frente aos amigos e do público, que teima em resistir à noite fria como inverno já às portas do verão, um Marcio feliz e emocionado. Com o troféu, o dinheiro, o abraço. E, principalmente, com suas lembranças do início do Racha, ainda jovem, quando sonhava com o locutor Perna narrando uma vitória sua na reta de Tarumã. Esse sonho, Marcio já pode riscar da lista. Rafael, também veio para o abraço, mas não conseguia esconder as lágrimas. Esta derrota doeu. Eu conheço a dupla e sei que isso vai torná-los mais fortes. Tiro meu chapéu para eles também.
Se você ler este texto e imaginar, por um minuto, que estou inventando isso ou que exagero os fatos, converse com alguém que esteve lá. De novo, a arrancada brilhou na noite do Rio Grande. O que contei é uma pequena amostra do que tem rolado por aqui, neste nosso canto do mundo, onde se vive com muita emoção. Na verdade, esta é apenas uma história entre tantas desta noite.
Se ainda assim não acreditar, crie coragem e venha conferir. Será recebido de braços abertos e terá a chance de descobrir porquê este esporte é tão amado no mundo e tem sua cultura toda própria.
A todos que fizeram desta Noite do Desafio3 mais um capítulo inesquecível no caminho da arrancada que queremos, um grande abraço. Não pensem que esqueci: sim, a arquibancada lotou. De novo. Agora em um feriadão. Sim, a arrancada é popular!
Lembrem-se da promessa: "uma prova de cada vez..."
A todos que fizeram desta Noite do Desafio3 mais um capítulo inesquecível no caminho da arrancada que queremos, um grande abraço. Não pensem que esqueci: sim, a arquibancada lotou. De novo. Agora em um feriadão. Sim, a arrancada é popular!
Lembrem-se da promessa: "uma prova de cada vez..."
Fotos e vídeos: Rita Copetti de Queiroz





tao perto e tao longe ao mesmo tempo!
ResponderExcluirParticularmente foi a mais emocionante de todas as etapas que ja participamos. Desde o inicio do dia, com nosso segundo carro prontinho para participar da festa e mais uma vez um problema de ultima hora acaba deixando ele de fora.
Depois a marca de 180 parecia ser coisa imbativel dentro de ulguns meses, mas logo na segunda passada alcancamos a marca. Bastava apenas mais uma apenas. 174, 175, 178 e se eu nao estiver muito louco, a cada passada tanto do eclipse quanto do fusca o publico soltava aquele hhuuuuuu.......assim como uma bola na trave em final de campeonato........ISSO NAO TEM PRECO! O fusca bate novamente os 180 e leva o premio....em seguida um 187 so pra deixar o sabor de que nao era para ser desta vez.
Final do TOP 16. Entre os dois carros mais rapidos. Acabamos queimando na vontade de tirar os 2 decimos de vantagem do fusca na reacao. Fica para a proxima.
O espetaculo esta cada vez melhor, os carros estao mais rapidos e constantes e certamente temos o maior espetaculo de arrancada do pais. Parabens MARCOLINO E TARUMA.
Se tu esta vendo coisas, então também estou...
ResponderExcluirÉ verdade, o publico estava participando, os locutores explicaram o que estava acontecendo e eles sabiam da disputa pelo dinheiro.
Eu posso dizer desta noite que foi a melhor experiência que tive até agora em corridas de arrancada. Muita gente, mas muita gente mesmo foi para a pista para correr e os resultados estão aparecendo.
Esta todo mundo de parabens e tu especialmente, por continuar com todos os dedos!
Parabéns para a AD. Sem sombra de dúvidas o melhor espetáculo da arrancada do momento. Na realidade, o melhor espetáculo de arrancada já visto por alguém aqui no Brasil.
ResponderExcluirAos vencedores da noite, Fusca CPEL, GSX Drag Race e Zottis, meus parabéns. Vocês ajudaram a escrever mais um pouquinho da nossa história. Gostaria de ter escrito com vocês, mas infelizmente meu carro me deixou na mão novamente.
Mas a gente se encontra lá de novo na ND4/5 de Natal!
Um grande abraço e parabéns Marquinho, tá cada vez melhor e mais surpreendente.
TRAS A NOITE DO DESAFIO PRA BH TAMEM TA FALTANDO INCENTIVO AQUI A PISTA ENCHE DE GENTE MAIS FALTA UM POUCO DE OBJETIVO OS CARROS CORREM MAIS NUM DISPUTAM NADA TEM CADA PUXADA VALER ALGUMA COISA.
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