quinta-feira, 28 de abril de 2011





CERTEZAS  &  INCERTEZAS





        Talvez os dragões sejam moinhos de vento.

Essa é uma questão que esta deixando muitos americanos desconfortáveis em suas cadeiras. A ADRL ( American Drag Race League ), que  praticamente nasceu do zero e em 5 anos se transformou em uma potência, hoje causa um sentimento de desconfiança em seus parceiros. Por um motivo simples: falta de auto sustentabilidade.

Hoje a ADRL pertence a familia real do Qatar, os antigos fundadores e administradores foram afastados. Isto ocorreu depois que em 2010 a ADRL  sofreu muito com a chuva, que interferiu com a realizaçaõ de suas provas e com a perda de seu principal patrocinador, a Guarda Nacional. A perda da Guarda Nacional, não teve a ver com a ADRL e sim com a politica americana, que devido a crise econômica resolveu rever contratos e fechar torneiras.















Novas regras foram implementadas, a ADRL, na pista esta mais forte que nunca. Inclusive a ADRL fez história a poucos dias conseguindo que pela primeira vez na  arrancada, uma emissora de TV comprasse os direitos para transmitir as provas da liga. Atinge assim, um patamar onde estão apenas a F1 e a Nascar. A NHRA paga por suas transmissões e este fato fez tremer seu quartel general  nestes dias.


Hoje se fala que  um carro para correr e vencer na ADRL pode chegar a 500 000 dólares, diferente dos 50 000 de poucos anos atras. Na ultima prova, na Flórida, haviam 21 destes carros para uma classificação de 16. E, pra completar a história de sucesso, o vencedor foi um nativo da Florida, que fez seu carro a "Low Mad" na sua oficina, competindo contra os poderosos carros do príncipe, que dispõe da melhor tecnologia que o dinheiro pode comprar. O que pode estar errado então?


Os americanos sabem fazer contas. Tem muita experiência acumulada. Uma análise simples revela que em 2011 a ADRL   tem agendada a maioria das provas em pistas menores, com arquibancadas de 20000 pessoas, mantendo sua política de ingressos a preço simbólico e inscrições idem. Sua renda direta vem do estacionamento, mas estas pistas também tem  estacionamentos pequenos. Publico pequeno = estacionamento pequeno. Uma prova da ADRL custa 250 000 por etapa, valor que não pode ser coberto sem um patrocinador master quando se compete em pistas de público pequeno.

Assim, muitos estão se lembrando do que  ocorreu com a IHRA anos atras, quando a empresa TORCO pagava tudo e houve um momento de grande desenvolvimento. Ninguem se preocupou de onde o dinheiro vinha e quando a TORCO ruiu, a IHRA foi junto e embora ainda exista, nunca mais foi a mesma . Este fantasma  agora ronda a ADRL.  Existe o consenso de que os dólares do sheik Khalid Al Thani não irão acabar, pelo menos não nas próximas gerações. Mas, muitos se perguntam quando ele vai desistir de bancar a liga e sair em busca de outros projetos. Ainda mais que todos sabem que  suas equipes já ganharam tudo que poderiam ganhar na ADRL, na NHRA e na Liga arabe. Quando se esta no topo, só tem um caminho possivel: para baixo.



Some-se a isso o fato de que o Qatar tem a Copa em 2022 e muitos projetos a completar até esta data. 

Bom, mas nós, o que temos a ver com tudo isso?

Todas as histórias trazem lições para serem aprendidas. E esta é bem clara. A NHRA , que é considerada a maior liga do planeta tem 85000 competidores ativos, que são também consumidores dos produtos de seus patrocinadores. Estes praticantes/consumidores são na verdade os donos da decisão de quão forte a NHRA é.

Isto aponta um caminho, que é o da integração. Integração de mercados, de pessoas, de inserir o espetaculo dentro da sociedade. Se estamos tentando estabelecer uma base para sustentar o esporte arrancada, ela nunca podera ser  dissociada da realidade que nos cerca. 

Temos dado passos corretos neste sentido e se em algum momento parecia que andavamos na contramão, olhando as coisas a luz do conhecimento aprendido, fica claro que o caminho da sustentabilidade é o único possivel. Sustentabilidade se consegue com a união dos interesses para o bem comum. E dentro deste conceito esta muito claro que não se pode depender de pessoas ou instituições que resolvem "mudar de ideia" no meio do jogo.

Ao longo dos anos tenho ouvido as coisas mais malucas tipo"o governo  tem de dar subsídios pra arrancada", os patrocinadores tem de pagar tudo(?), ou mais recentemente,  "tem de ter premio em dinheiro pros carros mais lentos"... isso soa como dar emprego público com cargo de cientista de foguete pra quem acabou de completar o primário da escola pública! No Brasil isto até acontece, basta ver o que ocorre cada vez que tentamos lançar um  foguete para colocar um satélite em órbita. É triste e lamentavel.

A arrancada, para ser viavel e portanto, sustentavel, tem de ter  competição forte, de preferência , feroz. O público tem de identificar nos competidores aquela faisca de genialidade, determinação e paixão que puderam ver em Senna, Piquet, Fittipaldi , Pelé, e até mesmo no Romário. Aquilo, que por um momento torna exepcionais pessoas comuns que a pouco estavam a seu lado. A arrancada tem de viver por si mesma, sem muletas, sem favores e com um "show  de realidade" em vez  de "show de recordes". Ou não veremos tão cedo expectadores na arquibancada.

Record? Veterano Tim Lynch em "The Rock" na final da Outlaw 10.5 com 4.14 a 197.3 milhas p/h

Temos de aprender, que por mais bonitos, polidos e atraentes os carros possam ser, eles não andam sozinhos. Seus resultados estão diretamentes ligados a pessoa que o pilota. Até a F1, com sua extrema tecnologia compreende e por isso paga tanto aos pilotos. E da mesma forma, também lembrar que bons carros tem bons preparadores.


A arrancada precisa de carros rápidos. Não precisamos carros importados de 500 000 US, nem mesmo de 50 000. Para construir uma  base sólida, precisamos daquilo que podemos  construir ampliando as bases do nosso conhecimento para fazer bons espetáculos. Parado  na pista durante a madrugada da ND6, compreendi isso ao ver a vontade de vencer de muitos que estavam ali. A noite era deles, e sei que  os que aguentaram até as 5hs da manhã não conseguiam mais se desligar do que ocorria na pista.

A chave para acabar com as incertezas, é uma grande parceria. 


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