segunda-feira, 1 de agosto de 2011


            A cada Noite do Desafio que vivemos em Tarumã mais algumas "certezas imprecisas" se desvaneçem  junto com a neblina  que vem e vai com hora marcada. Não saem dos meus pensamentos as histórias sobre o "Hall da Fama" da NHRA. 

Sou obrigado a ligar os pontos. Os pilotos que estão no topo do "Hall of Fame" construiram suas histórias, reputação e lenda  40 anos atras em pistas simples, a maioria improvisadas, dobrando regras com muita criatividade e coragem. Muita coragem. Coragem que emocionou e construiu uma legião de fãs apaixonados que vem lenta e inexoravelmente sendo destruida por uma série de regras e comportamentos supostamente politicamente corretos. Fico com as palavras de minha avó -"mentira tem perna curta" e acrescento por minha conta que é um caminho seguro para o desastre.

Bill Rice e Mark Willians
Este  Dragster da foto acima é um exemplo dos campeões da época. É um TOP Fuel , do estado do Colorado, conhecido como "Yellow Car" foi construido e pilotado por Mark Willians e preparado por Bill Rice. Originalmente , o chassi e demais peças foram feitas em 1967 por Mark Willians em sua MW Race Shop. Hoje MWEnterprises é um dos maiores fabricantes do setor de "drive line" nos EUA.

Uma olhada com calma na foto nos revela o básico para quem quer competir e vencer:  um motor com potência de sobra, peso mínimo e simplicidade máxima. O motor era um Hemi Chrysler de 1956 ( com 11 anos de vida quando foi para o  drag...), "Enderle Injection, 6.71 Blow, Isky  Cammed". Não é  ciencia de foguete.

Era rápido? Era não, ainda é. Muito rápido. Perigoso? Muito...E competia em pistas sem proteções laterais, sujeitas a ação de ventos, onde pilotos com capacidade de assumir riscos muitas vezes saiam da faixa de asfalto para terra e conseguiam voltar e vencer para delírio do público. Onde alguns pilotos como o Old Greek,Chris Karamesines  (com 82 anos, em 2011, classificou seu carro para uma final PRO da NHRA sem patrocinador , com mecânicos com média de idade de 75 anos trabalhando voluntariamente) torciam para que a neblina baixasse e a pista ficasse escorregadia por que sabiam que assim diminuia o fator carro e aumentava o fator piloto. 

Os brasileiros nunca tiveram arrancada, mas tiveram Ayrton Senna e a chuva e podem entender exatamente este sentimento. O Grego Velho conta que já tinha este apelido no início da década de 70, que correu provas da Nascar e de rally com sucesso, mas nada que pudesse lhe trazer a emoção de um Top Fuel "deslizando" pela pista. E que sua maior satisfação foi poder ter uma vida intensa ganhando dinheiro para fazer o que se fosse necessário, pagaria para fazer.

Quem sentaria em um Dragster desses para acelerar a fundo em Tarumã? Não pensem por um segundo que este dragster não competiu em locais similares ou ainda piores em sua época. Não se vai para o Hall da Fama por acaso. A comissão que decide os escolhidos é formada por pilotos, jornalistas e construtores e ... pelo TEMPO. O tempo dá o distanciamento necessário para clarear as coisas. 

Também não pensem que quem construiu um pequeno, mínimo chassi de tubos com rodas de motocicleta, sem freios dianteiros, fez para "brincar um pouquinho na pista". Fez para vencer, por que adversário bom, é adversário batido.

Essas reflexões me levam ao Daniel Moresco, o popular "Pipino". A pista estava boa em Tarumã na ND7? Não. A pista pelo menos é boa em Tarumã, as vezes? Não. A pista estava pior que o normal nesta noite em particular? Sim. Tinha muita neblina e tudo já estava úmido antes devido a grande quantidade de chuvas. Então estava mais dificil de pilotar ? Claro.

Boa potência, pouco peso, tração eficaz. Arrancada como deve ser.
O "Pipino" esta por ai a bastante tempo. Se tem alguem popular na arrancada gaúcha, é ele, Se tem alguem que já andou "deslizando", ziguezagueando por muitos lugares onde se corre arrancada no RS, é ele. Ele conta que já correu em pista que , no final, tinha um barranco com um rio no fundo... e a segurança era uma corda de isolamento. Ainda assim, não me parece que ele tenha perdido a vontade de acelerar para vencer.

A expressão  fala por si
A cada vitória que Daniel conquistou no TOP16 da ND7, pude ver um sorriso manhoso em seu rosto. Ali na pista, o motorista de ambulância, tem vocação de estrela. Estrela verdadeira, que nasce da admiração de seus pares e não da fabricação da mídia que trabalha para quem paga mais. Fiquei com a sensação que se  entregassem um carro de 3000 cv pro "Pepino", em uma tarde de treino, ele já estaria tirando de letra e dando conta do recado. Quantos no Brasil podem fazer isso? E mais, se fosse gringo, eu aposto que  poderia estar pilotando para Al Thani um de seus Pro Mods de 3.5s, ganhando o suficiente para não se preocupar mais com dinheiro.

Ao fim, a constatação: a vitória lhe caiu bem.

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